COLUNA DO FONTES

 


A política municipal sempre foi o território onde a realidade se apresenta sem mediações sofisticadas.

 

É na rua mal iluminada, na fila do posto de saúde, no transporte que atrasa, que o cidadão construiu sua leitura sobre quem governa. Mas essa relação direta - quase física, tangível - com a gestão local vem sendo impactada por uma variável nova, silenciosa e poderosa: a reorganização da atenção coletiva. Não se trata apenas do avanço das redes sociais. Trata-se de algo mais profundo: a forma como as pessoas consomem informação.

 

O chamado dopamine-scrolling - o hábito de rolar conteúdos de maneira contínua em busca de estímulos rápidos - está alterando o modo como a realidade é percebida, interpretada e julgada. E isso tem consequências diretas para a política municipal.

 

A percepção coletiva nunca foi um reflexo automático dos fatos. Ela sempre dependeu de mediação, de narrativa, de enquadramento. Mas, no ambiente atual, essa mediação se tornou mais fragmentada, mais veloz e, sobretudo, mais superficial.

 

A atenção não se sustenta. Ela oscila. Salta. Dispersa-se. O resultado é um deslocamento importante: o problema da comunicação pública deixa de ser apenas “o que dizer” e passa a ser, antes de tudo, “como existir” em um ambiente onde cada mensagem disputa poucos segundos de permanência.

 

Isso muda a lógica da política local. A primeira consequência é a definição do tempo. A gestão municipal passa a ser avaliada em ciclos cada vez mais curtos. Não há margem mais confortável para o amadurecimento de políticas públicas. O que não se traduz rapidamente em percepção tende a não existir do ponto de vista simbólico.

 

E, em política, o que não existe na percepção, não sustenta legitimidade. A segunda consequência é a primazia da emoção sobre a compreensão. O ambiente de rolagem favorece aquilo que provoca ocorrência imediata - indignação, medo, humor. Temas complexos, que desativam explicação e contexto, perdem espaço.

 

A política pública, por sua natureza, é complexa. Mas a percepção sobre ela passa a ser construída a partir de fragmentos simplificados. Criar, assim, um desalinhamento estrutural: governos operam na complexidade. A sociedade percebe na simplificação. Esse descompasso não é neutro. Ele abre espaço para interpretações invejadas.

 

O que não é explicado é ocupado. O que não é organizado em narrativa é reorganizado por terceiros. E aqui está um dos pontos mais sensíveis: o dopamine-scrolling não apenas acelera a circulação de conteúdos. Ele seleciona quais conteúdos têm mais chance de sobreviver.

 

E os que sobrevivem são, quase sempre, os que geram resultados rápidos - não necessariamente os mais verdadeiros ou mais relevantes. Na prática, isso amplia a vulnerabilidade da gestão municipal à desinformação e ao acidente. Não porque a informação correta não existe, mas porque ela, muitas vezes, não é competitiva nesse ambiente.

 

A terceira consequência é a fragmentação da imagem pública. Antes, era possível construir uma narrativa relativamente coesa sobre uma gestão. Hoje, a imagem é formada por microimpactos: um vídeo curto, uma fala recortada, uma crítica viralizada, uma resposta mal interpretada.

 

A soma desses fragmentos - e não mais a totalidade das ações - passa a definir a percepção. Isso exige uma mudança de postura. A comunicação pública não pode mais operar apenas como emissão. Precisa operar como arquitetura de percepção.

 

Isso implica antecipar leituras, compreender o ambiente em que a mensagem será recebida e, principalmente, organizar o sentido das ações antes que outros o façam. Não se trata de simplificar a gestão. Trata-se de traduzir a complexidade de forma inteligível, sem perder consistência.

 

Há, portanto, um erro recorrente que tende a se agravar nesse cenário: acreditar que a realidade administrativa se impõe por si só. Não se impõe. Nunca se impôs. E, no ambiente atual, exige-se menos ainda. A realidade precisa ser interpretada. E essa interpretação, se não for direcionada, será intensa.

 

No plano municipal, onde a proximidade entre governo e população é maior, essa influência ganha intensidade. Porque o cidadão não está disponível apenas o que não vê digital. Ele cruza o que vê com o que vive. E, quando há divergência entre essas duas dimensões - experiência concreta e narrativa circulante -, instala-se uma dúvida.

 

É uma dúvida, na política, corroi. Por isso, o desafio contemporâneo da gestão pública local não é apenas fazer. Nem apenas comunicar. É organizar a leitura social do que é feito em um ambiente onde a atenção é escassa, a interpretação é fragmentada e a disputa por sentido é permanente.

 

O scrolling de dopamina não é apenas um comportamento individual. É uma condição estrutural do ambiente informacional. E ignorá-lo significa operar com uma lógica que já não corresponde à realidade. No fundo, a política municipal continua sendo decidida no território concreto da vida cotidiana.

 

Mas a forma como esse território é percebido - e, portanto, politicamente significativo - é cada vez mais mediada por fluxos rápidos, fragmentados e emocionalmente carregados. E é nesse espaço - assustador, disputado e quase sempre invisível - que se define, de maneira cada vez mais decisiva, o destino dos gestores públicos.



Deixe seu comentário